Sinto o gosto metálico corrosivo na minha boca, minha saliva grossa e esbranquiçada, e não sei o que eu quero. Não sei o que espero quando jogo tanta porcaria pra dentro do organismo, como se quisesse expurgar o mal através de mais mal ainda. Enfio o dedo na garganta e vomito com a esperança de que o mal estar desça descarga abaixo junto com aquele resto de bílis e álcool. Mas não sai. Eu forço, forço, forço e só sai líquido. O grosso, o pesado, aquilo que está preso na minha garganta e que esmaga o meu coração simplesmente não sai. A bad trip passa, sinto meu corpo respondendo aos estímulos, mas eu não quero mais sair. Fico trancada no banheiro, sentada na privada fechada com as pernas abertas, segurando o cigarro aceso sem fumar, vendo a dança da chama e da fumaça naquele cubículo escuro. Rezo para que não me achem, ouço me chamarem do lado de fora, procuram por mim, mas eu não quero que me encontrem. Não quero que vejam o meu choro preso num rosto totalmente contraído e trincado. Quero morrer, desejo isso profundamente. Não quero estourar minha cabeça com uma bala ou cortar histericamente meus pulsos. Gostaria que meu coração inflasse e, como num infarto, fossem bolhas de sangue por todos os cantos e eu caísse dura e defunta no chão daquele banheiro imundo. Queria morrer, mas que tivessem pena de mim e não ódio. Gostaria de ser lembrada com amor e admiração, queria todos chocados com a minha morte prematura e imprevisível. Que fosse uma fatalidade. Que fosse um acidente terrível. Meu corpo desmembrado num atropelamento. Uma bala perdida na cabeça. Algo que eu pudesse me eximir da culpa de ter desejado a morte. Sinto-me culpada agora, estou com medo da hora de sair do escritório e realmente algo me acontecer. Tenho medo e desejo, estou terrivelmente excitada com a possibilidade de simplesmente morrer. Queria um coágulo no cérebro. Quase posso senti-lo agora, deslizando sua mortalidade latente pelos meus vasos sanguíneos, debochando dos meus neurônios e da mísera sobrevida que eles terão. Queria sair correndo do trabalho como uma louca, ser internada em um quarto branco, com enfermeiros necrófilos e diversas pílulas para nunca mais pensar em nada. Quero a catatonia, o autismo, a síndrome de Down. Antes eu queria uma overdose, mas desse jeito não iriam ter pena de mim. E eu quero que tenham dó da minha partida, quero que sofram com a minha morte aquilo que nunca sofreram com a minha vida. Quero que todos se explodam, que morram juntos comigo e que façam uma orgia dançante sadomasoquista no meu enterro.
17.5.10
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2 °C:
Faltou indicar a trilha sonora da orgia post-mortem...
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